Guia de Pronúncia do Latim Eclesiástico
Em geral, os fonemas do latim eclesiástico são muito semelhantes aos do português e quase idênticos aos do italiano. Com pouco tempo de prática e o apoio de um bom guia, é possível pronunciar com facilidade praticamente qualquer palavra apenas pela leitura.
O latim eclesiástico — adotado oficialmente pela Igreja Católica — difere de forma significativa do latim clássico (falado por autores como César, Sêneca e Virgílio). Essa diferença é justamente o que o aproxima do italiano moderno.
Como indicado no título, o foco aqui será o latim usado pela Igreja, que costuma ser o de maior interesse para quem busca esse conteúdo. As referências fonéticas utilizadas seguem o International Phonetic Alphabet (IPA): (https://www.ipachart.com/)
Vogais
Não há diferenças relevantes em relação às vogais do português.
Já o /y/ possui exatamente a mesma pronúncia do /i/.
Ditongos clássicos
Æ – æ – ae | Œ – œ – oe
No latim eclesiástico, esses ditongos clássicos sofreram monotongação e são pronunciados como /e/.
Exemplos:
caelum: /ˈtʃɛ.lum/ ou “tchélum”
laetitia: /leˈti.tsi.a/ ou “letítsia”
aeternus: /eˈtɛr.nus/ ou “etérnus”
saeculum: /ˈsɛ.ku.lum/ ou “séculum”
poena: /ˈpe.na/ ou “pena”
foedus: /ˈfɛ.dus/ ou “fédus”
coelum: /ˈtʃɛ.lum/ ou “tchélum”
Consoantes
C
Assim como no italiano, quando a letra /c/ ocorre antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/, /y/, ela é pronunciada como /tʃ/ (tch).
Nos demais contextos, mantém o som /k/.
/c/ + a, o, u = ka, ko, ku
/c/ + e, i, ae, oe, y = tche, tchi
Exemplos:
caelum: /ˈtʃɛ.lum/ ou “tchélum”
principium: /prinˈtʃi.pi.um/ ou “printchípium”
cena: /ˈtʃe.na/ ou “tchena”
corpus: /ˈkor.pus/ ou “córpus”
cultus: /ˈkul.tus/ ou “cúltus”
D
Em algumas regiões do Brasil, é muito comum a pronúncia de /de/ e /di/ como /dʒi/ (dji), mas o latim segue a pronúncia do /di/ do italiano ou do nordeste do Brasil, mantendo a forma de pronunciar /da/, /do/, /du/. Além disso, na pronúncia de /de/, o /e/ é bem marcado, não se aproximando de /i/.
Exemplos:
dies: “diés” (não "djiés")
diaconus: “diákonus” (não djiákonus)
medicus: “médikus” (não médjikus)
G
Como no italiano, quando a letra /g/ ocorre antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/, /y/, ela é pronunciada como /dʒ/ (dj).
Nos demais contextos, mantém o som /g/ do português.
/g/ + a, o, u = ga, go, gu
/g/ + e, i, ae, oe, y = dje, dji
Exemplos:
angelica: /anˈdʒɛ.li.ka/ ou "andjélica"
gens: /dʒens/ ou “djens”
genus: /ˈdʒe.nus/ ou “djenus”
regina: /reˈdʒi.na/ ou “redjína”
legio: /ˈlɛ.dʒi.o/ ou “lédjio”
agere: /ˈa.dʒe.re/ ou “ádjere”
vigilia: /viˈdʒi.li.a/ ou “vidjília”
gerere: /ˈdʒɛ.re.re/ ou “djérere”
H
A letra /h/ é muda no latim eclesiástico, exceto em dois casos especiais, quando é pronunciada como /k/.
Exemplos:
mihi: /ˈmi.ki/ ou “míqui”
nihil: /ˈni.kil/ ou “níquil”
hora: /ˈo.ra/
homo: /ˈo.mo/
J
O /j/ é pronunciado como /i/, igual ao som inicial de “Iara” no português.
Exemplos:
jam: “iam”
Jesus: “iêssus”
justus: “iústus”
major: “máior”
Julius: “iúlius”
L
Sempre /l/ claro e alveolar, nunca com som de /u/.
Para obter um /l/ plenamente articulado, toque a ponta da língua na parte frontal do céu da boca (região alveolar).
A realização é sempre como no italiano e no espanhol.
M / N finais
Sempre são plenamente pronunciadas, sem nasalização da vogal anterior.
panem: “pánem” com M audível. Cerre plenamente os lábios.
nomen: “nómen” com N audível. Mantenha a ponta da língua logo atrás dos dentes frontais superiores.
R
Bem como no espanhol e no italiano, o /r/ do latim eclesiástico deve ser vibrante alveolar, semelhante ao /r/ da pronúncia gaúcha.
Nunca deve ser realizado como o /r/ francês, o /r/ caipira do português brasileiro, nem o /r/ do inglês.
O símbolo correspondente no IPA é /ɾ/ (vibrante simples alveolar).
Não é /ʀ/ (vibrante uvular) nem /ʁ/ (fricativa uvular).
S
Sempre soa como o /ss/ do português, nunca como /z/, mesmo entre vogais.
Exemplos:
misericordia: “missericórdia”
rosa: “róssa”
Jesus: “iêssus”
T
A letra /t/ nunca é pronunciada como /tʃ/ (tch).
Ela mantém o som claro, semelhante ao /t/ nordestino brasileiro ou ao italiano, mantendo a forma de pronunciar /ta/, /to/, /tu/.
O /e/ em sílabas com /t/ é bem marcado, não se aproxima de /i/.
Exemplos:
laudate: “laudáthe” (não "laudátchi")
laetitia: “lethítsia” (não "letchítchia")
nativitas: “nathivítas” (não "natchivítas")
X
No latim eclesiástico, a letra /X/ é pronunciada como /ks/, semelhante ao português em palavras como "tóxico" ou "complexo".
Nunca assume som de /z/ ou /s/.
Exemplos:
exercitus: /ekˈsɛr.tʃi.tus/ ou “eksértchitus”
exemplum: /ekˈsem.plum/ ou “eksemplum”
lex: /leks/ ou “léks”
complexus: /komˈplɛ.ksus/ ou “kompléksus”
Z
A letra Z é pronunciada como /dz/, semelhante a algumas palavras italianas.
Exemplos:
zona: “dzona”
zelus: “dzélus”
Consoantes duplas
CC
A pronúncia de /cc/ é semelhante à de /c/ simples, mas com uma pequena pausa entre os dois sons consonantais (t-tch), quando antes das mesmas letras indicadas na seção sobre a letra /c/.
Essa é uma regra também presente no italiano: a palavra "pizza", por exemplo, é pronunciada com uma breve separação entre pi e zza, resultando em algo como pit-tsa. A ponta da língua toca a região logo atrás dos dentes superiores no primeiro som e em seguida passa para o segundo, produzindo dois sons articulados.
O mesmo ocorre no latim eclesiástico com /cc/, como em:
- ecce: /ˈɛt.tʃe/ ou “ét-tche”
O primeiro /c/ é brevemente interrompido, e o segundo é articulado normalmente.
Outro exemplo:
- síccitas: /ˈsit.tʃi.tas/ ou “sít-tchitas”
SC
Quando ocorre antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/ e /y/, /sc/ tem som de /ʃ/ (sh ou ch), de chiado.
Nos demais contextos, mantém o som /sk/.
/sc/ + a, o, u = ska, sko, sku
/sc/ + e, i, ae, oe, y = she, shi
Exemplos:
scientia: /ʃiˈen.tsi.a/ ou “shientsia”
scala: /ˈska.la/ ou “ská-la”
CH
Sempre como /k/, mesmo antes de /e/ ou /i/.
Exemplos:
máchina: “má-ki-na”
Christus: “Krístus”
chemia: “kêmia”
cherubim: “kêrubim”
schola: “skóla”
GN
Bem simples, /gn/ tem som de /nh/ ou /ɲ/ no IPA
Exemplos:
- agnus: /ˈa.ɲus/ ou “ánhus”
- regnum: /ˈre.ɲum/ ou “renhum”.
- magna: /ˈma.ɲa/ ou “mánha”
PS- inicial
Palavras iniciadas com /ps/ possuem o /p/ mudo.
Exemplos:
psalmus: "salmus"
psalterium: "saltérium"
QU / NGU
Tanto no /qu/ quanto no /ngu/, o /u/ é pronunciado, como se tivesse o acento trema (ü). Como nas palavras "qualidade" e "quociente"
Exemplos:
qui: /kwi/ ou “qüi”
quae: /kwe/ ou “qüe”
quod: /kwod/ ou “qüod”
sanguis: /ˈsan.gwis/ ou "sangüis"
Exceção:
- cui: /ˈku.i/ (duas sílabas: "cu-i")
XC
Antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/ e /y/, /xc/ tem som de /kʃ/ (k-sh).
- excelsis: /ekˈʃel.sis/ ou “ek-shél-sis”
Já antes de outra vogais, tem som de /ks/.
- excussorum: /eks.kusˈso.rum/ ou “eks-kus-sórum”
Caso especial
TI + vogal
Apenas quando seguido por vogal, /ti/ tem som de /tsi/.
laetitia: /leˈti.tsi.a/ ou “lethítsia”
scientia: /ʃiˈen.tsi.a/ ou “shientsia”
Exceto se precedido por S, T ou X.
hostia: "ósthia" (não "óstsia")
mixtio: "miksthio" (não "mikstsio")
Observações importantes
Como no italiano, as consoantes duplas são sempre articuladas claramente, prolongando o som da consoante:
Bello: Prolonga-se o som dos l's, segurando a ponta da língua no céu da boca;
Terra: Deve-se tremer a língua por mais tempo do que com o /r/ isolado.
É comum uma palavra terminar em consoante e a seguinte começar em vogal, neste caso elas são pronunciadas como se fossem uma mesma palavra. Por exemplo:
et animam: “e-tánimam”
in excelsis: “inekshélsis”
ad te: “át-te”
nunc et in hora: “núnkethinóra”
Ave Christus Rex