Guia de Pronúncia do Latim Eclesiástico

Literatura Jan 27, 2026

Em geral, os fonemas do latim eclesiástico são muito semelhantes aos do português e quase idênticos aos do italiano. Com pouco tempo de prática e o apoio de um bom guia, é possível pronunciar com facilidade praticamente qualquer palavra apenas pela leitura.

O latim eclesiástico — adotado oficialmente pela Igreja Católica — difere de forma significativa do latim clássico (falado por autores como César, Sêneca e Virgílio). Essa diferença é justamente o que o aproxima do italiano moderno.

Como indicado no título, o foco aqui será o latim usado pela Igreja, que costuma ser o de maior interesse para quem busca esse conteúdo. As referências fonéticas utilizadas seguem o International Phonetic Alphabet (IPA): (https://www.ipachart.com/)

Vogais

Não há diferenças relevantes em relação às vogais do português.
Já o /y/ possui exatamente a mesma pronúncia do /i/.

Ditongos clássicos

Æ – æ – ae | Œ – œ – oe

No latim eclesiástico, esses ditongos clássicos sofreram monotongação e são pronunciados como /e/.

Exemplos:

  • caelum: /ˈtʃɛ.lum/ ou “tchélum”

  • laetitia: /leˈti.tsi.a/ ou “letítsia”

  • aeternus: /eˈtɛr.nus/ ou “etérnus”

  • saeculum: /ˈsɛ.ku.lum/ ou “séculum”

  • poena: /ˈpe.na/ ou “pena”

  • foedus: /ˈfɛ.dus/ ou “fédus”

  • coelum: /ˈtʃɛ.lum/ ou “tchélum”

Consoantes

C

Assim como no italiano, quando a letra /c/ ocorre antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/, /y/, ela é pronunciada como /tʃ/ (tch).
Nos demais contextos, mantém o som /k/.

  • /c/ + a, o, u = ka, ko, ku

  • /c/ + e, i, ae, oe, y = tche, tchi

Exemplos:

  • caelum: /ˈtʃɛ.lum/ ou “tchélum”

  • principium: /prinˈtʃi.pi.um/ ou “printchípium”

  • cena: /ˈtʃe.na/ ou “tchena”

  • corpus: /ˈkor.pus/ ou “córpus”

  • cultus: /ˈkul.tus/ ou “cúltus”

D

Em algumas regiões do Brasil, é muito comum a pronúncia de /de/ e /di/ como /dʒi/ (dji), mas o latim segue a pronúncia do /di/ do italiano ou do nordeste do Brasil, mantendo a forma de pronunciar /da/, /do/, /du/. Além disso, na pronúncia de /de/, o /e/ é bem marcado, não se aproximando de /i/.

Exemplos:

  • dies: “diés” (não "djiés")

  • diaconus: “diákonus” (não djiákonus)

  • medicus: “médikus” (não médjikus)

G

Como no italiano, quando a letra /g/ ocorre antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/, /y/, ela é pronunciada como /dʒ/ (dj).
Nos demais contextos, mantém o som /g/ do português.

  • /g/ + a, o, u = ga, go, gu

  • /g/ + e, i, ae, oe, y = dje, dji

Exemplos:

  • angelica: /anˈdʒɛ.li.ka/ ou "andjélica"

  • gens: /dʒens/ ou “djens”

  • genus: /ˈdʒe.nus/ ou “djenus”

  • regina: /reˈdʒi.na/ ou “redjína”

  • legio: /ˈlɛ.dʒi.o/ ou “lédjio”

  • agere: /ˈa.dʒe.re/ ou “ádjere”

  • vigilia: /viˈdʒi.li.a/ ou “vidjília”

  • gerere: /ˈdʒɛ.re.re/ ou “djérere”

H

A letra /h/ é muda no latim eclesiástico, exceto em dois casos especiais, quando é pronunciada como /k/.

Exemplos:

  • mihi: /ˈmi.ki/ ou “míqui”

  • nihil: /ˈni.kil/ ou “níquil”

  • hora: /ˈo.ra/

  • homo: /ˈo.mo/

J

O /j/ é pronunciado como /i/, igual ao som inicial de “Iara” no português.

Exemplos:

  • jam: “iam”

  • Jesus: “iêssus”

  • justus: “iústus”

  • major: “máior”

  • Julius: “iúlius”

L

Sempre /l/ claro e alveolar, nunca com som de /u/.
Para obter um /l/ plenamente articulado, toque a ponta da língua na parte frontal do céu da boca (região alveolar).

A realização é sempre como no italiano e no espanhol.

M / N finais

Sempre são plenamente pronunciadas, sem nasalização da vogal anterior.

  • panem: “pánem” com M audível. Cerre plenamente os lábios.

  • nomen: “nómen” com N audível. Mantenha a ponta da língua logo atrás dos dentes frontais superiores.

R

Bem como no espanhol e no italiano, o /r/ do latim eclesiástico deve ser vibrante alveolar, semelhante ao /r/ da pronúncia gaúcha.
Nunca deve ser realizado como o /r/ francês, o /r/ caipira do português brasileiro, nem o /r/ do inglês.

O símbolo correspondente no IPA é /ɾ/ (vibrante simples alveolar).
Não é /ʀ/ (vibrante uvular) nem /ʁ/ (fricativa uvular).

S

Sempre soa como o /ss/ do português, nunca como /z/, mesmo entre vogais.

Exemplos:

  • misericordia: “missericórdia”

  • rosa: “róssa”

  • Jesus: “iêssus”

T

A letra /t/ nunca é pronunciada como /tʃ/ (tch).
Ela mantém o som claro, semelhante ao /t/ nordestino brasileiro ou ao italiano, mantendo a forma de pronunciar /ta/, /to/, /tu/.

O /e/ em sílabas com /t/ é bem marcado, não se aproxima de /i/.

Exemplos:

  • laudate: “laudáthe” (não "laudátchi")

  • laetitia: “lethítsia” (não "letchítchia")

  • nativitas: “nathivítas” (não "natchivítas")

X

No latim eclesiástico, a letra /X/ é pronunciada como /ks/, semelhante ao português em palavras como "tóxico" ou "complexo".
Nunca assume som de /z/ ou /s/.

Exemplos:

  • exercitus: /ekˈsɛr.tʃi.tus/ ou “eksértchitus”

  • exemplum: /ekˈsem.plum/ ou “eksemplum”

  • lex: /leks/ ou “léks”

  • complexus: /komˈplɛ.ksus/ ou “kompléksus”

Z

A letra Z é pronunciada como /dz/, semelhante a algumas palavras italianas.

Exemplos:

  • zona: “dzona”

  • zelus: “dzélus”

Consoantes duplas

CC

A pronúncia de /cc/ é semelhante à de /c/ simples, mas com uma pequena pausa entre os dois sons consonantais (t-tch), quando antes das mesmas letras indicadas na seção sobre a letra /c/.

Essa é uma regra também presente no italiano: a palavra "pizza", por exemplo, é pronunciada com uma breve separação entre pi e zza, resultando em algo como pit-tsa. A ponta da língua toca a região logo atrás dos dentes superiores no primeiro som e em seguida passa para o segundo, produzindo dois sons articulados.

O mesmo ocorre no latim eclesiástico com /cc/, como em:

  • ecce: /ˈɛt.tʃe/ ou “ét-tche”

O primeiro /c/ é brevemente interrompido, e o segundo é articulado normalmente.

Outro exemplo:

  • síccitas: /ˈsit.tʃi.tas/ ou “sít-tchitas”

SC

Quando ocorre antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/ e /y/, /sc/ tem som de /ʃ/ (sh ou ch), de chiado.
Nos demais contextos, mantém o som /sk/.

  • /sc/ + a, o, u = ska, sko, sku

  • /sc/ + e, i, ae, oe, y = she, shi

Exemplos:

  • scientia: /ʃiˈen.tsi.a/ ou “shientsia”

  • scala: /ˈska.la/ ou “ská-la”

CH

Sempre como /k/, mesmo antes de /e/ ou /i/.

Exemplos:

  • máchina: “má-ki-na”

  • Christus: “Krístus”

  • chemia: “kêmia”

  • cherubim: “kêrubim”

  • schola: “skóla”

GN

Bem simples, /gn/ tem som de /nh/ ou /ɲ/ no IPA

Exemplos:

  • agnus: /ˈa.ɲus/ ou “ánhus”
  • regnum: /ˈre.ɲum/ ou “renhum”.
  • magna: /ˈma.ɲa/ ou “mánha”

PS- inicial

Palavras iniciadas com /ps/ possuem o /p/ mudo.

Exemplos:

  • psalmus: "salmus"

  • psalterium: "saltérium"

QU / NGU

Tanto no /qu/ quanto no /ngu/, o /u/ é pronunciado, como se tivesse o acento trema (ü). Como nas palavras "qualidade" e "quociente"

Exemplos:

  • qui: /kwi/ ou “qüi”

  • quae: /kwe/ ou “qüe”

  • quod: /kwod/ ou “qüod”

  • sanguis: /ˈsan.gwis/ ou "sangüis"

Exceção:

  • cui: /ˈku.i/ (duas sílabas: "cu-i")

XC

Antes de /e/, /ae/, /oe/, /i/ e /y/, /xc/ tem som de /kʃ/ (k-sh).

  • excelsis: /ekˈʃel.sis/ ou “ek-shél-sis”

Já antes de outra vogais, tem som de /ks/.

  • excussorum: /eks.kusˈso.rum/ ou “eks-kus-sórum”

Caso especial

TI + vogal

Apenas quando seguido por vogal, /ti/ tem som de /tsi/.

  • laetitia: /leˈti.tsi.a/ ou “lethítsia”

  • scientia: /ʃiˈen.tsi.a/ ou “shientsia”

Exceto se precedido por S, T ou X.

  • hostia: "ósthia" (não "óstsia")

  • mixtio: "miksthio" (não "mikstsio")

Observações importantes

Como no italiano, as consoantes duplas são sempre articuladas claramente, prolongando o som da consoante:

  • Bello: Prolonga-se o som dos l's, segurando a ponta da língua no céu da boca;

  • Terra: Deve-se tremer a língua por mais tempo do que com o /r/ isolado.

É comum uma palavra terminar em consoante e a seguinte começar em vogal, neste caso elas são pronunciadas como se fossem uma mesma palavra. Por exemplo:

  • et animam: “e-tánimam”

  • in excelsis: “inekshélsis”

  • ad te: “át-te”

  • nunc et in hora: “núnkethinóra”

Ave Christus Rex

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